terça-feira, 31 de julho de 2007
MEU FINAL
O Ser perdido
No isolamento da floresta?
A festa que a natureza fez,
Perdi,
Nem vi brotar
O fruto da mãe terra.
Tanto se fez
Na busca pelo alimento,
Que temos que pagar
Pelo essencial gratuito,
Obedecendo regras,
Defendendo a paz,
Ouvindo os donos da verdade, dizerem:
Sinto muito.
O ancião morreu, ou cumpriu sua tarefa?
O sonho dourado de perfeição
Caiu da minha mochila
Na vinda pra cá,
E agora não sei
Se verei a grande festa do ancião,
Ou volto no tempo
Desesperado à procurar.
Até agora me falaram verdades confusas,
distorcidas de tudo que eu acredito.
Prefiro acreditar
Na verdade profunda
Do grandioso Ser perdido.
Tony Borba
Sonetinho demoroso!
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Faz-me te ver, cheia de falso pudor.
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A solidão que minh´alma fere
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Reflete teu duvidoso ardor.
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E se te foges do que me inseres
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Não existe frio, nem nada, nem calor.
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Se, com todo pesar, assim preferes,
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Confesso-te, em silêncio demoroso, que me aperta uma dor
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E se é assim que me queres
É por tu, que vejo outras mulheres
Todas sem sabor
Mas sinto-me melhor entre elas
Pois tua solidão me consumiu.
Perdi a rima, e meu soneto desandou...
domingo, 29 de julho de 2007
INCERTEZAS
Eu parto em busca de futuro
E curto o curto êxtase de ser
O ser que eu não sou
Jamais serei e
Jamais direi que não serei
As realidades já vividas
Em fantasias reprimidas
No meu velho quarto futurista
Em que o artista desistiu
De quase todos os seus horizontes
Vistos do alto de uma ponte
Que a vida construiu
E que o artista resistiu.
Tony Borba
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Pré-fácil?
Sempre há um prefácio, às vezes implícito. Mas está lá.
A vida é um prefácio. As orelhas são o livro. A Vida é um resumo.
Vários textos nasceram de prefácios. Gente que não queria escrever. Mas não conseguiu resistir à vontade íntima que lhe beliscava o âmago. Por que na verdade escrever não é um “fazer”. É o não fazer da alma. O escritor tenta não escrever, mas sucumbe a uma força que lhe é universal. A contra-gravidade artística o faz levitar. E se perde nos devaneios do introspecto.
E para fazer agrados aos seus eu-mesmos, para sararem a coceira artística que os incomodava, deram um dose homeopática às suas almas: decidiram escrever só um prefácio. Mas terminaram escrevendo um livro. É a sina dos artistas.
Tudo é um prefácio. Texto sem prefácio não deixa de ser texto, mas perde um quilate do charme peculiar.
E quando um texto simplesmente fala por si e não precisa de prefácio? Nada fica mais fácil. A idéia parece ‘estátil’ e o prefácio fica por ali. Perambulando. De Soslaio. Porque sabe que tem o seu lugar.
Não havendo que versar. Eis o meu prefácio.
(o texto segue, falando por si mesmo)
“Trecho
Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a flauta falou: Fui eu.
Mas quem foi, disse a Flauta
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.”
Vinícius de Moraes por Erik Liver
Na Real
a vontade
de explodir,
submete
meu ser
infinitamente
frágil,
fragilizado
de dor.
Adormece,
só,
sossega,
o peito
dói,
o que corrói
a alma
sofre,
é forte
minha dor.
Amar
Sem ter
Amor,
Sem flor,
Sabor,
Saber
de dor.
Tony Borba
quinta-feira, 26 de julho de 2007
AUSÊNCIA
Traduz meus sofrimentos.
O meu lamento é duvidoso,
Inseguro.
No escuro só me resta a dor,
Quando a música traz você
Ao pensamento nebuloso.
Não ver nada
Aumenta o drama,
E quando deito,
O peito,
A cama,
O ar,
A falta,
A causa,
O caos,
A vida,
Estou só.
Perdido...
Nem pensamentos,
Nem dor, nem sofrimentos,
Nem você.
Tony Borba
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Rosário
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma môça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre o meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzinho de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-Cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado.
Lembro que longe, nos longes
Um gramofone tocava,
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona n'água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana-brava.
Senti, à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só aquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe pra quem, quem sabe!
Mas como me perseguia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade.
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
Vinícius de Moraes por Tony Borba
terça-feira, 24 de julho de 2007
Po.e.na.da
Quem me socorre,
Se só corro a você?
(vazio)
Quem me destrói,
Se só eu posso te ver?
(vazio)
Quem somos nós?
Questores de Amores Lúdicos,
Ninguém há de crer.
Se nos descasulamos em noites ferventes.
(des.vazio)
Meras imagens transfiguradas
De qualquer coisa que quis existir
Mas não encontrou forças
Para se deslocar, descolar, decolar,
Do Vazio.
Vazio.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Hoje é meu futuro
É meu futuro
planejado
No passado.
E não é nada
Igual ao que sonhei.
Bom ou ruim,
Não é igual.
Por incrível que pareça
É bem normal
Tal e qual
O que eu já fui.
Um dia...
Tony Borba
quinta-feira, 19 de julho de 2007
A
)
Poeticidade.
Nem imagino – nem me dei ao árduo trabalho – o que define a profundidade poética de um homem. O que o faz um Veríssimo ou um Fernando Pessoa. Também não sei quantos Rubens Fonsecas equivalem a um Tom. Ou o contrário.
Às vezes vou, às vezes volto. Não sei se o caminho é entrar ou sair, em mim ou nos outros.
Mas imagino – sem árduo trabalho – que se Vinícius escreveu o texto que segue sobre uma “mulher que passa”, realizem o que faria se amasse esta mulher como eu o faço.
Pobre deste eu-mesmo, atabalhoado de auto-não-conhecimentos e...,armado de incontável amor e contável poesia. Para quê?
A mulher que passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
texto infrutífero sobre quase nada!
Cisco.
Zíngaro.
Cada casa na sua mala.
Tudo que tenho são meios livros carcomidos
E lembranças de Estorge.
Sou passeio.
Sou mundo
Sou presente.
Sou nada,
Ante a morte
inesperada.
Erik Liver
Falsa Compreensão
Impera a miséria,
Moral, banal e desesperada.
As diferenças alheias
É minha festa,
Meu circo,
Meu riso,
Minha Alegria,
Mas, meu sorriso dura o tempo
Da mão bater na minha cara...
... não há graça
Quando é minha a cara
Que está na tapa.
Tony Borba.